Percepções daqui

Xícara sem café. Cidade sem sentido? Mais um blog sobre catarse da minha própria existência. Quando escrever sobre o cotidiano soa como sobrevivência na cidade onde vivo

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Visita ao piquete dos caminhoneiros em Paranavaí

Desde que soube, através de imagens, das faixas "Queremos intervenção militar" na paralização dos cominhoneiros posicionados na BR 376, não me animei em me juntar ao movimento. Aí veio o apoio da associação comercial da cidade e pronto, minha antipatia foi selada. Mas a avalanche de notícias, boatos, dramas em forma de textos, áudios e vídeos me provocaram e convidei as pessoas em geral no grupo do ZapZap do meu vereador: duas almas se dispuseram e fomos firmes, dispostos à ouvir, mais do que falar. E sem nenhuma evidência do nosso esquerdismo. Foi muito interessante; primeiro porque conheci J., a figura do Sumaré, tão incrível no grupo e porque revi I., o professor bonitão, ambos da minha laia. Depois porque conheci a realidade daquelas pessoas, que ganham a vida através da estrada. A vida do caminhoneiro contratado é diferente da do autônomo, esses últimos são cerca de 40% dos homens das estradas brasileiras. Ser caminhoneiro é assumir um estilo de vida, é se acostumar com a rotina sem rotina, é se viciar em paisagens: o caminhoneiro é antes de tudo um romântico. Mas ali tinha empresários também; um tem 19 caminhões, outro apenas 3. A diversidade de instâncias sócio econômicas do piquete era tamanha, que não souberam me explicar quem colocou a faixa em defesa da intervenção militar ali: uma delas é uma placa, não faixa! Quando toquei no assunto, muitos me ouviram e não defenderam: pareciam ignorar o significado.
Houve uma ordem de conceitos nesse fenômeno: começou como locaute, passou para greve e dái para paralização. E o governo perdeu o controle e agora assume o uso da força ao dizer que são baderneiros os que permanecem e impedem os que querem trabalhar, baderneiro que pedem intervenção militar.

Quem é capaz de confessar saudades de Lula, o conciliador?!

domingo, 27 de maio de 2018

O casarão da esquina da Pernambuco

Era uma casa térrea, toda ajardinada e presumo que os donos eram orientais. Havia muitas plantas ao redor: quintal, garagem e nos fundos. Estava velha e descuidada, arquitetura dos anos 1970, com cobogós, por exemplo. Já não consigo vizualizar mais essa casa, pois ela foi vendida, demolida e agora o terreno baldio está para alugar (!) Não sei sobre os trâmites todos, mas houve uma placa de vende-se, noutra semana foi tudo abaixo e ontem vi a placa de aluga-se. Por Deus, eu não consigo entender, não entra na minha cabeça: qual a lógica disso? Se fosse caso isolado, até ok, mas isso é a coisa mais comum de acontecer em Paranavaí: são muitos terrenos baldios em áreas nobres frutos de casas grandes demolidas. O trocadilho com a obra de Gilberto Freire não é coincidência. A informação mais preocupante que me chegou esse ano sobre a cidade foi de que 40% dos imóveis estão fechados ou aciosos! Isso mesmo, eu escrevi 40%!!! O que esperar de um município assim? Numa respota rápida, e meramente ilustrativa: alugueis altos, existência de uma elite especulativa e predatória. Isso porque o valor do IPTU de terrenos baldios é mais caro do que de propriedades onde haja construções. Onde estão os jovens filhos da elite? Estão fora daqui e isso pra mim reflete, além de escolhas pessoais que desconheço, a falta de tino pra que a cidade absorva essas pessoas.
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Não é de hoje que lanço a sorte sobre minha permanência aqui. Somado à outras decisões definidas, lanço: se naquela esquina abrir uma farmácia, eis mais um belo chute em mim. O que me mantém aqui é meu trabalho, minha carreira que construí à revelia deste lugar. O nascer e o pôr do sol do MEU apartamento são lindos, entusiasmáticos: amo meu trabalho, minha casa... mas essa cidade dá mostras de que, inadequada a sua "lógica" e modos de operação, não me acolhe, não cola com o que penso ser um lugar para ser socialmente feliz.