Percepções daqui

Xícara sem café. Cidade sem sentido? Mais um blog sobre catarse da minha própria existência. Quando escrever sobre o cotidiano soa como sobrevivência na cidade onde vivo

sábado, 18 de agosto de 2018

Diálogos impertinentes na praça dos Pioneiros

Um segundo depois que me despedi de todos em frente à prefeitura, pensei comigo mesma: o que estou fazendo aqui, que manhã foi essa? Mais um segundo: "Estou no lugar certo!" Estar com a juventude é uma forma de beber na fonte, de estar ligada ao novo, de sofrer e levar influência. Eu não quero parar nunca, do contrário, não serei mais eu.
Onde a vida se faz milagre?
Onde se faz rancor?
Eu me desfaço em sentimentos confusos ao refletir sobre os últimos episódios da minha vida. Os estudantes pararam as palavras de ordem quando o homem segurou no meu braço, dizendo: "É vagabundo!" Eu estava no meio do calçadão, um pouco longe do grupo. Uma das gurias pensou que o homem rancoroso falava deles, de nós, dos manifestantes da praça, mas no diálogo, o vagabundo na boca do reacionário de meia idade era Ciro Gomes como opção de voto, afinal, ele disse que votará no Inominável por falta de opção; isso depois de dizer que o povo não sabe votar: eu disse, mas vc sabe, pretensioso! O eleitor de Bolsonaro ainda é capaz de ouvir. Até quando? Eu não desmerço ninguém, absolutamente, mas não me venha com jargões ignorantes, como este: vagabundo. Espavoridos, dialogamos, mas a expressão corporal revelou o conflito: eu panfletava elegante, distribuindo as ideias dos estudantes: fecharam a biblioteca do campus por falta de funcionário. Quem me ouviu no megafone? Quem sabe de mim nesse lugar de tanta desigualdade? A rua é o meu lugar de catarse, onde primo pelo contato humano e esqueço das mazelas do mundo de mim. Depois da caminhada até o centro da cidade, sem megafone e gritando palavras de ordem à capela, dividimos os ouvidos dos citadinos com um artista de rua: saxofonista. Foi a primeira vez que vi um músico solitário tocando na calçada aqui em Paranavaí: deixei 20 pilas no chapéu, pela música que nos animou no protesto na rua.
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Em casa, o causo com a colega de trabalho ainda me aflige. Eu não quero mais digerir o conflito para além da mesa do bar, como foi ontem com G.:chega! Depois de pedalar com esse tempo seco, o cabelo fica cheio de folhinhas. Vou me limpar de corpo e de alma ouvindo Jorge Drexler no último volume, para regozijo (ou não) da minha vizinhança. O que é tão pequeno não pode me atingir, amém!

Dan dos Santos, daqui.

sábado, 30 de junho de 2018

Um marco da minha vida daqui

Fiquei tanto tempo fora daqui que esqueci a senha. Hoje foi um dia importante: saí de bicicleta num sábado à noite em Paranavaí, como nos velhos tempos de Berlin. Tá fazendo aniversário o desvencilhamento da minha vida de lá, quando tive aportunidade de me estabelecer fora do país, mas longe do sol. Na balança, estou bem: minha latinha de skol na cestinha da bicicleta, o pedal embriagado, as teclas daqui também; porque se quer sempre mais? Eu vi a lua saindo da copa das ávores linda e brilhante, meu pescoço pra cima, tanta gente me ouvindo na mesa do bar que eu escolhi. Eu sempre tive um bar de estimação, e hoje encontrei o meu em Paranavaí depois de 7 anos! Nunca é tarde... Lembro do São Domdom em Niterói. Ou do Ä em Berlin. Ou do Kubischek em Maringá. Meus heróis são Gregório Duduvier, Julian Assange e Edward Snowden, além de Angela Davis, Lula e Marisa Monte. "Não importa de que lado vc esteja, Lula te desperta alguma coisa, tipo Neymar. A diferença que só um deles tirou 40 milhões da miséria e o outro só tirou o pai. Só um deles tá acusado de sonegação fiscal e falsidade ideológica, o outro não." Gregorio Duduvier.

Luzinhas ligadas: vermelha atrás e a piscadinha branca na frente, visitinha de alegria pra L. e 5 latinhas no meu caminho, além de conhecidos da noite, como Biba de Maringá em visita a tia de Paranavaí e que joga lixo no chão, e o casal em conflito: ela não se conforma que o marido de 3 anos vai votar no Bolso: um casamento à mingua... eu fujo dos relacionamentos, apesar de atirar pra lados indesejados... sentir-me desejada anima a alma, mesmo que eu fuja de todos os que possam se apresentar como opressores: não tem como fugir, a opressão é certeira fora do poliamor... amar é sofrer (?). Vivo a minha liberdade: escrever no meu blog sobre Paranavaí, a cidade onde vivo, em pleno sábado, bêbada e às 3 da manhã... Prezeres toscos. Viva la vida!

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Visita ao piquete dos caminhoneiros em Paranavaí

Desde que soube, através de imagens, das faixas "Queremos intervenção militar" na paralização dos cominhoneiros posicionados na BR 376, não me animei em me juntar ao movimento. Aí veio o apoio da associação comercial da cidade e pronto, minha antipatia foi selada. Mas a avalanche de notícias, boatos, dramas em forma de textos, áudios e vídeos me provocaram e convidei as pessoas em geral no grupo do ZapZap do meu vereador: duas almas se dispuseram e fomos firmes, dispostos à ouvir, mais do que falar. E sem nenhuma evidência do nosso esquerdismo. Foi muito interessante; primeiro porque conheci J., a figura do Sumaré, tão incrível no grupo e porque revi I., o professor bonitão, ambos da minha laia. Depois porque conheci a realidade daquelas pessoas, que ganham a vida através da estrada. A vida do caminhoneiro contratado é diferente da do autônomo, esses últimos são cerca de 40% dos homens das estradas brasileiras. Ser caminhoneiro é assumir um estilo de vida, é se acostumar com a rotina sem rotina, é se viciar em paisagens: o caminhoneiro é antes de tudo um romântico. Mas ali tinha empresários também; um tem 19 caminhões, outro apenas 3. A diversidade de instâncias sócio econômicas do piquete era tamanha, que não souberam me explicar quem colocou a faixa em defesa da intervenção militar ali: uma delas é uma placa, não faixa! Quando toquei no assunto, muitos me ouviram e não defenderam: pareciam ignorar o significado.
Houve uma ordem de conceitos nesse fenômeno: começou como locaute, passou para greve e dái para paralização. E o governo perdeu o controle e agora assume o uso da força ao dizer que são baderneiros os que permanecem e impedem os que querem trabalhar, baderneiro que pedem intervenção militar.

Quem é capaz de confessar saudades de Lula, o conciliador?!

domingo, 27 de maio de 2018

O casarão da esquina da Pernambuco

Era uma casa térrea, toda ajardinada e presumo que os donos eram orientais. Havia muitas plantas ao redor: quintal, garagem e nos fundos. Estava velha e descuidada, arquitetura dos anos 1970, com cobogós, por exemplo. Já não consigo vizualizar mais essa casa, pois ela foi vendida, demolida e agora o terreno baldio está para alugar (!) Não sei sobre os trâmites todos, mas houve uma placa de vende-se, noutra semana foi tudo abaixo e ontem vi a placa de aluga-se. Por Deus, eu não consigo entender, não entra na minha cabeça: qual a lógica disso? Se fosse caso isolado, até ok, mas isso é a coisa mais comum de acontecer em Paranavaí: são muitos terrenos baldios em áreas nobres frutos de casas grandes demolidas. O trocadilho com a obra de Gilberto Freire não é coincidência. A informação mais preocupante que me chegou esse ano sobre a cidade foi de que 40% dos imóveis estão fechados ou aciosos! Isso mesmo, eu escrevi 40%!!! O que esperar de um município assim? Numa respota rápida, e meramente ilustrativa: alugueis altos, existência de uma elite especulativa e predatória. Isso porque o valor do IPTU de terrenos baldios é mais caro do que de propriedades onde haja construções. Onde estão os jovens filhos da elite? Estão fora daqui e isso pra mim reflete, além de escolhas pessoais que desconheço, a falta de tino pra que a cidade absorva essas pessoas.
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Não é de hoje que lanço a sorte sobre minha permanência aqui. Somado à outras decisões definidas, lanço: se naquela esquina abrir uma farmácia, eis mais um belo chute em mim. O que me mantém aqui é meu trabalho, minha carreira que construí à revelia deste lugar. O nascer e o pôr do sol do MEU apartamento são lindos, entusiasmáticos: amo meu trabalho, minha casa... mas essa cidade dá mostras de que, inadequada a sua "lógica" e modos de operação, não me acolhe, não cola com o que penso ser um lugar para ser socialmente feliz.