Mandei o texto para o painel do leitor do jornal local: O diário do noroeste.
Até ser publicado, em fonte minúscula e no pé da página 5, a coisa toda transformou-se num enredo interessante e revelador.
Entre o interesse político de cada um e as relações pessoais, o caminho pode ser longo e tortuoso.
Revelações para além do que acredito ser sensato: aprendo...
Percepções daqui
Xícara sem café. Cidade sem sentido? Mais um blog sobre catarse da minha própria existência. Quando escrever sobre o cotidiano soa como sobrevivência na cidade onde vivo
sexta-feira, 25 de novembro de 2016
terça-feira, 22 de novembro de 2016
A poesia como combustível
No final da semana
passada, nos dias 18 e 19 de novembro, Paranavaí serviu à carapaça de seu
codinome: cidade poesia. Na sua 51ª edição, o Festival de Música e Poesia recebeu
poemas, contos e músicas dos quatro cantos do Brasil, além de Portugal. Foi
bonito ouvir, nos discursos após as premiações, as homenagens à cidade, ao
festival e aos organizadores: Paranavaí tornou-se Paranavaíso nas palavras de
um poeta. Exageros à parte, certamente para um criador que tem como matéria prima
as palavras, a existência de um festival tão longevo como o Femup, patrimônio
imaterial da cidade desde o ano passado, é um privilégio. Afinal, os artistas da
palavra têm a oportunidade de expressar seus versos, sons e composições
literárias: um termômetro da sua intimidade com a escrita, do seu poder de
provocar emoções, fazer pensar e sentir.
Eu tive a honra de
contribuir com o Femup este ano como jurada dos poemas inscritos: foram mais de
400, então o trabalho foi árduo e envolvente, pois questionei o próprio
conceito de poesia: quais critérios? Em que medida e qual a importância da
métrica, da temática, da emoção? Sem saber previamente o resultado, encontrei
no palco do “Altino” os poemas declamados, outra categoria de premiação,
essencial e reveladora de talentos, então me emocionei mais algumas tantas vezes.
A boa surpresa da noite
de sábado foi a participação especial da banda Nômades, cujo integrante mais
destacado será o próximo prefeito da cidade, Kiq. A música Tubarões de aquário
foi classificada, assim como outras composições, em edições anteriores do
Femup, prova da verve artística do nosso futuro prefeito. Porém, presumo que
sua gritante guitarra elétrica não tenha nascido tucana: nem sempre a estética
musical combina com as ideologias políticas. Entretanto, o som deu a pitada
essencial ao rock pesado da noite, cuja letra empolgou e me abasteceu de
esperança.
Aliás, a figura do
gestor municipal tem sido fundamental para o sucesso do Femup nesses anos
todos. E o reconhecimento do trabalho do prefeito Rogério Lorenzetti aconteceu
nesta edição com o recebimento do prêmio Natividade, materializado na famosa
barriguda. O apoio da política institucional é essencial, mas também é preciso
reconhecer o trabalho da equipe liderada pelo presidente da Fundação Cultural,
Amauri Martinelli. Neste aspecto, os artistas e integrantes do conselho de
Políticas Culturais têm sido respeitados: na divulgação da equipe do novo
governo, à revelia da política de apadrinhamento, o próximo governante do
executivo municipal manteve o nome de Martinelli à frente da Fundação Cultural,
equivalente à secretaria de cultura: sensato, no mínimo, já que a força do
Femup está na equipe que o faz acontecer. Que Paranavaí continue assim, nos
dando música e poesia como combustível.
domingo, 20 de novembro de 2016
Artigo de 04/12/2015, Paranavaí, cidade poesia
Em 2015 o FEMUP, Festival de Música e
Poesia de Paranavaí foi contemplado com o registro de patrimônio imaterial da
cidade e isso é um passo e tanto para o reconhecimento público desse evento,
que acontece há 50 anos.
Eu já conhecia o festival de nome,
porque se fala muito dele na cidade. Aliás, a alcunha de cidade poesia vem do
festival, que deve mesmo ser motivo de orgulho dos moradores. Não é fácil
manter um evento desta envergadura por tantos anos: exige dedicação dos
artistas locais, envolvimento do poder público e apoio da sociedade.
Os festivais de música eram bastante
populares nos anos 1960, palco de lançamento de grandes músicos, como foi o
festival da Record, assim como o auto denominado arrogantemente “Festival dos
festivais” da Rede Globo nos anos 1980. Durante a ditadura militar esses
eventos sofreram as mazelas da repressão e em Paranavaí não foi diferente.
Em vídeo documentário produzido pelo
jornalista David Arioch com auxílio de Amauri Martineli na direção, alguns
depoimentos indicam a apreensão dos participantes e organizadores diante da
atuação de agentes do governo, infiltrados ou não, na sua gana em encontrar
subversivos ou material com conteúdo impróprio. Maus tempos que poderiam minar
a existência do FEMUP, mas a reverência à arte e à poesia foi maior, mais forte
do que a falta de liberdade de expressão. Confesso que quando vi fotos de uma
manifestação em Paranavaí em que figurava um cartaz pedindo intervenção militar,
senti vergonha alheia, e como professora de História, fiz mea culpa.
Enfim, como expectadora de primeira
viagem, fui atingida no peito pela munição poética dos que estiveram no palco
do teatro municipal Dr. Altino Afonso Costa! Músicas, poemas e contos, mas também
uma pitada de teatro, já que as declamações são bem elaboradas. Tudo muito
emocionante!
Uma amiga, também professora e
ex-moradora de São Paulo, disse ter se surpreendido com o festival. Falou num
tom suficientemente surpreso pra dar a entender que não esperava encontrar um
evento de tamanha qualidade numa cidade do interior. E como é bom se
surpreender assim, eu bem sei!
A coisa toda foi emocionante, provocando mais do que aplausos do público
presente: às vezes lágrimas. E quando isso acontece, penso que a arte atinge
seus objetivos, que é emocionar, fazer pensar, refletir esteticamente. Do samba
com cítara, aos gritos das bruxas, minha estreia como expectadora do FEMUP foi
suficientemente boa pra me fazer cativa. Vida longa ao festival!
quinta-feira, 17 de novembro de 2016
Apesar do assombro do mundo
Saio de casa sob sol escaldante: filtro solar no rosto e braços. O pneu murcho da bici me fez passar no borracheiro: ele é sempre solícito, brinca que custa 50 reais; peço pra colocar na conta e rio. As árvores trazem o frescor da sombra e o vento impede que se derreta na rua. Faço fotocópias na loja conveniada com o campus universitário ocupado pelos estudantes: pago dez centavos a mais. Decido me manter lá dentro papeando e aproveitando o ar condicionado ligado. Compro um geladinho de um garoto do sétimo ano na esquina do banco, não sem antes saber se ele gosta de estudar; as crianças de hoje em dia dizem que não, numa boa. No meu tempo de estudante não era assim: a escola era levada à sério; dei um sermão nele, ainda mais depois de saber que ele deseja ser como o tio de São Paulo, cirurgião plástico. Pedi um de sabor maracujá: preciso me acalmar mesmo. Por vezes sou tomada por assombros repentinos vindos de mim mesma; olho pro arranha-céu novíssimo do centro, apesar da rua de paralelepípedo, e me pergunto: o que estou fazendo da minha vida? Acho que é porque ontem vi o filme "O preço do amanhã" (In time) e ainda estou sob impacto do enredo; gosto muito de ficção científica mesmo. A volta é sempre mais cansativa, mas a bola azul me espera em casa. Pedalada, esticada de pilates e o calor que amolece o cérebro: sou feliz aqui, apesar desse assombramento do mundo a minha volta.
quarta-feira, 9 de novembro de 2016
Texto de 29/10/2015 no finado site "A voz do noroeste"
Crônicas do cotidiano.
Eis a proposta para me expressar nesta coluna semanal. Então penso: de que
lugar eu falo? O que o lugar onde eu moro me oferece? Meu olhar é quem não é
nativa de Paranavaí, porém, nascida no Paraná. O lugar do meu olhar é também do
selim. Meio de transporte, mas também academia móvel, a bicicleta nem sempre é
bem vinda no espaço urbano, haja vista a demonização do prefeito petista
Fernando Haddad: os paulistanos parecem divididos. Quanta ousadia, se as
cidades estão organizadas privilegiando os carros! E aqui não é diferente. Mas
bem que poderia ser.
Meu olhar é crítico e
pretende ser construtivo, pois tenho aflorado meu senso de cidadania, de
participação. Quando pedalo, as imagens chegam ao olhar num ritmo tão perfeito,
que sou capaz de sentir pena dos que nunca se equilibraram em cima de uma
bicicleta. Durante o dia, valorizo as sombras todas provocadas pelas árvores: o
descanso ideal do sol. É muito bom mesmo viver em uma cidade arborizada, apesar
de ter sofrido recentemente ao ver uma mangueira enorme sendo ‘assassinada’ nos
arredores da Tancredo Neves no jardim São Jorge. O poder público local deveria
evitar, o mais possível, o corte de árvores. Concordo que em algumas situações
paga-se o preço do desenvolvimento: não era tudo mesmo uma grande floresta por
aqui? Fato é que uma cidade esverdeada tem mais qualidade de vida. Isso é
consenso em todo mundo, não?
Através do meu olhar
pretendo expressar opinião, ciente de que o senso crítico é fundamental e capaz
de promover um outro ângulo pro olhar alheio. Ao escrever, sem as amarras
acadêmicas, talvez eu opte por uma pitada generosa de poesia (tão fundamental
para se manter psicologicamente bem neste mundo cão.)
Meu olhar é de quem
trabalha com educação e num histórico recente – há exatos sete meses – sofreu
as conseqüências ao se manifestar em Curitiba: as balas de borracha marcaram
meu corpo e minha alma; as bombas de gás lacrimogêneo lançadas de helicóptero
foi expressão de arrogância e covardia. Desde então percebi que uma outra pessoa
nasceu em mim. Como um divisor de águas, senti na pele a força violenta do
aparato estatal, então pareço outra. E por aqui, é como se o editor do site,
também professor de História, abrisse um espaço para mostrar essa outra que sou
eu, que me tornei. Menos conformada, essa outra de mim, através da observação
do mundo à minha volta e da expressão de opinião, está à procura de novos caminhos
para transformar o mundo. E esse outro caminho possível pode ser percorrido de
bike. Que tal?
Estranha num dia estranho
Um dia quente e triste, se olho pro planeta. Então sinto necessidade de escrever sobre meu mundo de aqui e agora: Paranavaí, onde moro, vivo e pago multas: como a que tomei hoje por ter demorado mais de 12 dias para pagar o estacionamento no centro da cidade. Entre pedaladas e calçadas mal feitas, quando feitas, observo com quase rancor. Penso na reunião de trabalho amanhã: respiro fundo e me acalanto. Penso na maginífica retomada da rotina no trabalho, depois de uma greve inglória. Na perspectiva de saber mais de mim. Eu me surpreendo quando sussurro na rua pra alguém ouvir: "que cidade suja!" ao ver que as pessoas jogam lixo na rua. Me surpreendo com minha discussão com a moça do guichê da secretaria de trânsito: tive que pedir desculpas no final. Vou pagar a multa que vai pro caixa da prefeitura que será governada por um delegado gato, porém tucano. Os voos da política me congelam a alma; depois do golpe nacional e do curso das coisas, não quero me assumir derrotada como alguns colegas de trabalho. Eu me redimi comigo mesma: passei na praça da xícara pra fazer a foto do blog que eu já havia posto no ar; num lapso de pensamento pensei em me esticar na ATI. Eu iria de bicicleta, mas o pneu murcho me fez pegar o carro: na volta fumei dois cigarros, coisa que nunca faço dentro do carro. Eu me estranho como estranho o mundo. Escrevo: quem sabe um dia me ajude a entender...?
Vou publicar aqui os texto que escrevi semanalmente para o "A voz do noroeste" site que saiu do ar por motivos incompreendidos até hoje.
Vou publicar aqui os texto que escrevi semanalmente para o "A voz do noroeste" site que saiu do ar por motivos incompreendidos até hoje.
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