Percepções daqui

Xícara sem café. Cidade sem sentido? Mais um blog sobre catarse da minha própria existência. Quando escrever sobre o cotidiano soa como sobrevivência na cidade onde vivo

domingo, 20 de novembro de 2016

Artigo de 04/12/2015, Paranavaí, cidade poesia

Em 2015 o FEMUP, Festival de Música e Poesia de Paranavaí foi contemplado com o registro de patrimônio imaterial da cidade e isso é um passo e tanto para o reconhecimento público desse evento, que acontece há 50 anos.
Eu já conhecia o festival de nome, porque se fala muito dele na cidade. Aliás, a alcunha de cidade poesia vem do festival, que deve mesmo ser motivo de orgulho dos moradores. Não é fácil manter um evento desta envergadura por tantos anos: exige dedicação dos artistas locais, envolvimento do poder público e apoio da sociedade.
Os festivais de música eram bastante populares nos anos 1960, palco de lançamento de grandes músicos, como foi o festival da Record, assim como o auto denominado arrogantemente “Festival dos festivais” da Rede Globo nos anos 1980. Durante a ditadura militar esses eventos sofreram as mazelas da repressão e em Paranavaí não foi diferente.
Em vídeo documentário produzido pelo jornalista David Arioch com auxílio de Amauri Martineli na direção, alguns depoimentos indicam a apreensão dos participantes e organizadores diante da atuação de agentes do governo, infiltrados ou não, na sua gana em encontrar subversivos ou material com conteúdo impróprio. Maus tempos que poderiam minar a existência do FEMUP, mas a reverência à arte e à poesia foi maior, mais forte do que a falta de liberdade de expressão. Confesso que quando vi fotos de uma manifestação em Paranavaí em que figurava um cartaz pedindo intervenção militar, senti vergonha alheia, e como professora de História, fiz mea culpa.
Enfim, como expectadora de primeira viagem, fui atingida no peito pela munição poética dos que estiveram no palco do teatro municipal Dr. Altino Afonso Costa! Músicas, poemas e contos, mas também uma pitada de teatro, já que as declamações são bem elaboradas. Tudo muito emocionante!
Uma amiga, também professora e ex-moradora de São Paulo, disse ter se surpreendido com o festival. Falou num tom suficientemente surpreso pra dar a entender que não esperava encontrar um evento de tamanha qualidade numa cidade do interior. E como é bom se surpreender assim, eu bem sei!  
A coisa toda foi emocionante, provocando mais do que aplausos do público presente: às vezes lágrimas. E quando isso acontece, penso que a arte atinge seus objetivos, que é emocionar, fazer pensar, refletir esteticamente. Do samba com cítara, aos gritos das bruxas, minha estreia como expectadora do FEMUP foi suficientemente boa pra me fazer cativa. Vida longa ao festival! 

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